Estudo teológico da devoção ao Coração Imaculado de Maria
A expressão "cor immaculatum" é moderna. Ela se tornou de uso corrente depois da
definição do dogma da Imaculada Conceição. Depois das aparições da Virgem em
Fátima e da publicação dos escritos de irmã Lúcia, a expressão "coração imaculado"
se impôs no uso eclesial e litúrgico. Ela atingiu a máxima difusão nos anos de
1942 e 1952, por causa da influência exercida pelos acontecimentos de Fátima,
que determinaram a consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria e uma
quantidade de outras consagrações por parte de instituições eclesiais e às
vezes civis. O movimento de piedade para com o Coração Imaculado de Maria
alcançou o seu ápice em 1944 com a extensão da festa a toda a Igreja latina.
Esses anos eram também anos de intenso florescimento da piedade mariana:
nela se inseriu, com vigor jamais conhecido antes, a devoção ao Coração de Maria.

01- Breve história da devoção

Na Sagrada Escritura

A devoção ao coração de Maria tem o privilégio singular de poder contar
com dois textos-chave neotestamentários, que estão na base de toda a
tradição bíblica do Antigo Testamento, relacionados com os tempos messiânicos.
São eles: "Maria, por sua vez, conservava todas essas coisas, meditando-as
no seu coração" (Lc 2,19). "Sua mãe conservava todas essas coisas no seu coração" (Lc 2,51). Há um terceiro texto: "E também a ti uma espada transpassará a alma" (Lc 2,35). Maria é colocada no centro da reflexão cristã sobre os mistérios da infância
de Jesus. Isso é muito importante para a espiritualidade cordimariana, já
que o coração de Maria, segundo as fontes evangélicas, aparece como o berço
de toda a meditação cristã sobre os mistérios de Cristo. E isso confere à
devoção ao Coração de Maria um fundamento escriturístico de valor incomparável. O texto da apresentação no templo - é igualmente de grande interesse mariológico,
pois nele aparece com indiscutível profundidade a associação interior de
Maria com toda a obra salvífica de seu Filho. Tudo o que se realiza no corpo sofredor do Filho realizar-se na alma e no
coração da mãe.

Na Patrística

A patrística, tanto grega quando latina, desenvolveu por meio de esplêndidas
reflexões o conteúdo dos textos lucanos. Gregório Taumaturgo já expressa a
idéia de que o Coração de Maria foi como que o vaso e o receptáculo de todos
os mistérios. Simeão Matafrastes dá testemunho de longa tradição oriental que
faz do Coração de Maria o próprio lugar da paixão de Jesus: "O teu lado foi
transpassado, mas no mesmo instante o foi também o meu coração". O tema da "concepção no coração" está presente na reflexão mariológica de toda a
Idade Média e das épocas seguintes até o Concílio Vaticano II, que no entanto,
o atribui à maternidade espiritual de Maria. Hugo de São Vítor põe bem em evidência o tema segundo o qual o Verbo desceu ao
seio de Maria justamente porque fora concebido primeiro no seu coração.

São João Eudes

Na história da devoção é preciso dar lugar especial a este santo "evangelista,
apóstolo e doutor" da devoção aos sagrados corações de Jesus e Maria. Com São João
Eudes temos: congregações religiosas dedicadas ao culto do Coração de Maria e do
Coração de Jesus, as primeiras festas litúrgicas, com ofício e missa próprios, as
primeiras obras sistemáticas de histórias, teologia e piedade; as primeiras confrarias,
as primeiras aprovações da Igreja, tanto episcopais quanto pontifícias; as primeiras
oposições sérias; a primeira grande difusão da devoção aos sagrados corações
entre o povo cristão. Que pretendia dizer São João Eudes com a expressão "Coração de Maria"? Em um de seus
textos significativos nos dizem tudo. "O seu coração é a fonte e o princípio de todas
as grandezas, excelências e prerrogativas com que se adorna, de todas as qualidades
eminentes que a elevam acima de todas as criaturas, como o ser filha primogênita do
eterno Pai, mãe do Filho, esposa do Espírito Santo e templo da Santíssima Trindade.
Quer dizer também que esse santíssimo coração é a fonte de todas as graças que acompanham
essas qualidades... e quer dizer ainda que esse mesmo coração é a fonte de todas as
virtudes que praticou... E porque foram a humildade, a pureza, o amor e a caridade do
coração que a tornaram digna de ser a mãe de Deus e como conseqüência, de possuir
todos os dotes e todas as prerrogativas que devem acompanhar essa altíssima dignidade".

As aparições de Fátima

Hoje, em uma história da devoção ao Coração de Maria, não podemos deixar de fazer
menção à mensagem cordimariana que, como nova primavera, as aparições de Fátima
nos legaram e devido seu revigoramento, obitveram reconhecimento eclesial. O anjo de Fátima, já na primeira e na segunda aparições, afirma: "Os Sagrados
Corações de Jesus e de Maria têm o vosso respeito projetos de misericórdia".
E, na terceira aparição, une a reparação ao Coração de Jesus à reparação ao
Coração de Maria. A Virgem, na segunda aparição (junho de 1917), declara que
Lúcia é apóstola da devoção ao seu Coração com estas palavras: "Jesus quer servir-se
de ti para me fazeres conhecer e amar. Ele quer estabelecer ao mundo a devoção ao
meu Coração Imaculado. Prometo a salvação a quem a praticar, essa almas serão amadas
por Deus como flores colocadas por mim para adornar o seu trono". No entanto, é sobretudo na aparição de junho de 1917 que a mensagem sobre o Coração
de Maria se enriquece com uma série de elementos de grande importância: a visão do
inferno, o futuro da Rússia soviética, os sofrimentos do mundo, da Igreja e do papa,
o triunfo final do Coração de Maria. Nessa aparição a Virgem promete voltar novamente
para pedir a comunhão reparadora nos primeiros sábados e a consagração da Rússia.
A mensagem cordimariana em Fátima não só assumiu dimensão mundial e eclesial, mas
ainda foi posteriormente aprofundada e interiorizada. Quando, nos anos de 1942 e
seguintes, se difundem as duas primeiras parte do chamado "segredo de Fátima",
Fátima se transforma em fenônemo carismático eclesial de primeira ordem; a partir
deste momento começa como que uma nova era na história da Devoção ao Coração de Maria.

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